terça-feira, 21 de outubro de 2008

O cheiro mais arrogante do mundo

Existem aqueles que afirmam que a reação do perfume pode variar de corpo para corpo, variando assim o doce do que há no frasco, criando um aroma único que passa chocando o ar, deixando impressa uma marca nunca possível de apagar, debilitando nos com lembranças e revivendo sensações.
O bom de se elevar sempre o sensorial em detrimento de algo tão sem valor que é o sopro divino representado nas ações tão implicadas de racionalidade, razão que muitas vezes luta para garantir que Deus inexiste e depois de tanto empenho se descobre vislumbrada com sua limitação em explica-lo de forma definitiva, o bom de sentir em lugar de analisar friamente os momentos, é que, nada nos rouba a bela vista que temos dos ombros delicados, vestidos com as mais alvas estamparias, uma tão sorridente e mortal prova de que é pela fraca entrega ao divagar, que encontramos a estranha descoberta pelo dono dos ombros, de que a terra parou de girar no momento em que senti exalar de seu corpo um cheiro tão convidativo.
Existem leitos pelos quais passei que deixei uma parte de mim, e trouxe em troca astuta, um pouco dos aromas cedidos.
Nas ruas, colos são tão atraentes que me perco perdidamente apaixonada por cheiros sem rostos e nomes. Tão rápido me enamoro quanto os perco.
Dou graças por nunca mais os ter por perto, já que a falta de pudor é punido com a retirada de minha liberdade de ir e vir, esta liberdade tão primeira que por ela não abro mão, pois é por zelar por este direito, que posso me aventurar a sentir por mais e mais vezes esta grande maravilha preservada apenas em mim, para a minha egoísta distração.
Hoje um aroma delicado me parou os reflexos, me lembrei de algum ser que tive apenas para mim, o cheiro não era completamente igual, por crer piamente nos que afirmam as varições de perfumes mesmo iguais em corpos diferentes, estava a bela criatura atrás de mim, sem tocar-me. Senti todas as mais despudoradas vontades desta terra.
Aproveitei até o fim e pela primeira vez senti vontade de alongar este momento até a mais infinita das possibilidades.
Dei a um passo para trás, afim de contemplar o dono deste meu prazer tão solitário e aos olhos da sociedade, vil.
Não era um anjo, era um detentor universal de uma total arrogante forma de estar no mundo. Mas mesmo assim, cativante.
Meu corpo, tenho absoluta certeza, não se moveu um centímetro, mas minha alma, pareceu começar a se aproximar deste ser, a ladear, tornar-se muro, afagar-se em suas curvas e costas, a mão que parecia não ter respeito, sobre o ventre passeava, até subir mais e mais e ao se aproximar dos fartos contornos, apertava-lhes até quase sufocar este estranho ser. Não cobro de mim agora a necessidade que deveria ter sentido de tocar com os meus dedos os lábios desta bela forma vivente.
De volta à terra, olhei de forma definitiva na face deste indivíduo. Não disse nada.
Dei as costas, mas antes, por um breve instante meus olhos completamente apaixonados foram bem capazes de expressar gratidão ao ser que não sei o nome, as datas.
Não cobraria mais nada, tive o que me permiti possuir.
E agora, carrego um pouco disto comigo para sempre.

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