segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

O cara que me afetou

Eu estava na rua com a Daniele, com a Geórgia, a irmã dela também...e passou um cara por mim e eu fiz uma gracinha e ele me chamou de sapatão.
Eu ri para despistar, mas fiquei corada.
Num dos ensaios da peça Romeu e Julieta, tinha um povo saindo da escola e viu os ensaios e disseram a mesma palavra maldita.
A minha avó brigou comigo um dia e disse que eu tinha um caso com a minha melhor amiga e disse a mesma palavra maldita.
Eu estava no jardim e ouvi a minha avó comentar com a minha tia avó que eu era isso aí.
Eu adaptei um clássico do Teatro para ouvir muitas vezes esta palavra até me acostumar com ela e rir dela.
Estava cansada de ser chamada disto o tempo todo nas brigas dentro de casa. Eu me cansei de negar um milhão de vezes esta merda toda.
Agora esta palavra não me diz mais nada, agora sou julgada por outros motivos, nenhuma pessoa tem mais este direito!
Mas eu era só uma criança! Já não bastava o inferno dentro de mim, já não era pouco eu me culpar, tentar mudar, me conter para não deixar emergir?
Eu queria ter um espacinho...um tempinho de infância tranquila, eu nunca mais queria ter medo de me apaixonar e o meu olhar me delatar...
Aí virei a estranha, agredia para desviar os olhares, eu tinha que ser a rebelde sem cura para não olharem tão de perto para mim.
Sinto vergonha dos rapazes que usei para me esconder.
A coisa mais triste deste mundo é ter vergonha dos próprios sentimentos. Ter vergonha de dar carinho é a coisa mais podre que existe.
E só mais uma coisa, você pode ler quantos livros encontrar pela frente, mas tarde da noite vem uma solidão tão grande que, nem abraçando forte todos eles, você será capaz de se sentir protegido.
Se houver alguma garotinha assim na sua rua, não olhe tanto assim para ela, deixe ela brincar, de noite você nem sabe, mas ela chora por não entender a razão de gostar mais da amiguinha do que do pedrinho bom de futebol. Ela não sabe direito o que sente, mas já tem certeza dentro da cabecinha dela, que isso é errado.
Ela já tem problemas demais, deixe ela correr, deixe ela ser menina, menino, os dois, deixe ela ser criança.

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